Olhos que Pensam: O Poder de Ler Imagens na Sala de Aula
Durante muito tempo, na minha prática docente utilizei as imagens como meros suportes ilustrativos, por exemplo um quadro representando o Tratado de Zamora ou uma fotografia de uma indústria do século XIX. Assumia então que os alunos compreenderiam a mensagem por mera exposição da imagem. Algumas vezes ouvia comentário “isso é só uma imagem, professor” ou “uma fotografia antiga”. Para eles, a leitura visual parecia-lhes intuitiva e desnecessária de explicação.
A recente leitura do texto de
Martine Joly, Introdução à Análise da Imagem, acabou por ser, para mim, um
ponto de viragem no que respeita à minha prática pedagógica. Para Joly, a
imagem não é um código universal automaticamente decifrável, como em temos eu
pensei. Aprendi com o autor que a leitura da imagem tem uma carga cultural tão
grande como a leitura de um texto escrito, exigindo reflexão, contextualização
e análise crítica.
Decidi recentemente testar uma
nova abordagem, alinhada com o autor. Durante uma aula acerca da expansão
marítima portuguesa, nas turmas de 6º ano, em vez de apenas projetar o painel
de azulejos sobre a partida de Vasco da Gama, levei os alunos a observar com
atenção cada detalhe dos elementos visuais. Levantaram-se de imediato questões “porque
se representa o rei ao centro?”; “que emoções deixam transparecer as expressões
dos rostos?”; “que símbolos de poder estão presentes?” Rapidamente as respostas
deixaram o domínio da descrição e entraram no campo da interpretação, por
exemplo “a imagem parece querer mostrar que o rei é a figura mais importante,
porque é ele quem paga”; “não há mulheres, tinham um papel menor nesta época”.
Posso dizer que, sem margem para
erros, a transformação foi visível, uma vez que os alunos começaram a relacionar
a imagem com conteúdo histórico, mas também com as suas próprias vivencias e
contextos culturais e sociais e isso elevou a aula que se tornou num exercício de
construção.
A abordagem de Martine Joly pode, do meu ponto de vista, ser
encarada como um apelo à lucidez na medida em que evidencia que a imagem, tal
como a linguagem, manipula e informa. Nesse sentido precisa de ser desvendada.
Leitura recomendada:
Joly, M. (2007). Introdução à análise da imagem (J.
E. Rodil, Trad.). Edições 70. (Obra original publicada em 1994)

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